sexta-feira, 28 de maio de 2010

África e o discurso performativo

Caros amigos, hoje pretendo iniciar uma discussão metodológico-conceitual que permeia toda minha pesquisa: a ideia de representação. Antes, porém, alguns esclarecimentos. Estou cursando a disciplina Prática de Pesquisa em História III e, ao término, tenho que entregar um projeto de pesquisa, a ser o caminho para a produção monográfica. Até então tudo bem, já fiz um projeto, aquele de Iniciação Científica. Entretanto, estou com algumas dificuldades: trabalhando com duas frentes, na perspectiva comparativa, tenho que ler duas fontes, duas bibliografias, fazer duas análises individuais... enfim, tudo dobrado. O problema é que não dá tempo! Não é uma tese de doutorado, é uma monografia! Dessa forma, optei por concentrar-me apenas no concernente à África e, talvez um dia, eu retome minhas comparações de forma mais refinada e com mais tempo para elaboração.
Assim, a discussão que tentarei apresentar agora prende-se à África e, de certa forma, foi um dos pontos que toquei ao apresentar o A construção da África. O que entendemos por representação pode ser uma pergunta inicial, mas pensamos que seria melhor pensar em como a representação se constitui para, então, discutir tal ponto.
Luís Filipe Barreto e José da Silva Horta concordam que tal processo parte do embate entre o lido e o visto, entre a tradição e a experiência. Isso significa que, ao ter contato com outros povos, os viajantes atribuíam uma determinada significação à realidade com a qual se defrontavam menos analisando os elementos que, de fato, a constituem, que retomando seu arcabouço cultural. Assim, tanto a realidade africana como americana ou, ainda, oriental, são "forçadas" a caber dentro da cosmologia, da sociologia e da religião europeias. Gruzinski afirma que a América foi descrita com vocabulário europeu, o que leva-nos a perceber que, embora os elementos presentes em ambos os continentes fossem diferentes em natureza e uso, são descritos com palavras afins: a identidade na diferença é ressaltada, ou antes, o discurso da alteridade impera nas fontes.
Entre descrever e prescrever não há muita distância do ponto de vista do discurso. Ao descrever os novos mundos, os europeus recriavam-nos: atribuíam novos significados, entendiam as práticas de maneira diferente daquela nas quais elas eram entendidas pelos seus praticantes, recriavam um mundo de relações sociais de acordo com a dicotomia lido/visto. Aproximamo-nos, assim, do discurso performativo que emana das representações. Tendo as últimas como processos conscientes ou inconscientes de construção semântica da realidade, notamos que é através de tal forma discursiva, a performativa, que esse nova realidade passa de "dada a entender" a "dada a ser". A construção do real a partir do que dele se entende é um ponto latente em nossa análise, pois a representação pressupõe esforço em corresponder, em ser o que se é aos olhos do outro. Mas vale aqui uma ressalva.
Bourdieu faz essa análise aplicada a um conjunto no qual há inter-relação dos agentes: o descrito/prescrito têm ciência do que sobre ele se pensa e, entendendo-se também como tributário dessa forma de ser pela qual é pensado, corresponde adotando comportamentos, modos, etc. Um exemplo é a sociedade de corte, na qual, ao receber um título nobiliárquico, a sociedade passa a conceber uma nova visão do indivíduo: ele é um nobre, e enquanto tal age desta e daquela maneira. A descrição de seu comportamento é, ao mesmo tempo, a prescrição do mesmo, levando, assim, tal indivíduo a agir de maneira correspondente ao que dele se espera. O efeito descritivo, de acordo com Bourdieu, tem o mesmo efeito que o apresentado na seguinte assertiva: a reunião está aberta. Até que ponto o enunciador descreve a reunião, que está aberta, ou, por meio de tais palavras, abre-a: a reunião está aberta. É uma constatação ou uma construção?
Essa situação dá-se em contexto de interlocução. Entretanto, não podemos falar em interlocução no início da expansão ibérica para a África, por razões óbvias: falta entendimento. Mesmo assim, entendemos que o discurso performativo apresentado pelos cronistas atua no dimensionamento do mundo real ao intervir nas relações sociais que sucedem-se entre África e Europa, moldando o "lido" e causando implicações mais profundas entre realidade/representação, o "visto". O discurso performativo bourdieano, assim, pode ser uma ferramenta-conceito para pensar os etno-encontros africanos e notar como a África foi construída/pensada/dada a entender na Europe moderna.
Preocupamo-nos com a visão europeia acerca da realidade africana não por acreditarmos ser a primeira a criadora/descobridora da segunda. Antes, nossa preocupação deriva do fato de nossas fontes serem europeias, produzidas por europeus. Prestamo-nos, dessa forma, ao exercício de buscar compreender as estruturas pelas quais a África foi pensada e, a partir de tais relações, tentar construir uma perspectiva histórica para os povos subsaarianos. É um trabalho difícil, entre a História Cultural e a Etnohistória. É esse nosso desafio e o primeiro obstáculo é entender o poder performativo do discurso sobre os guineus.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Apresentação na UFV

Olá, pessoal!
Ontem foi feita a apresentação de meu trabalho no I Seminário Nacional de Práticas Sociais, Narrativas Visuais e Relações de Poder: visões contemporâneas. O Simpósio Temático Narrativas Visuais Coloniais e Pós-Coloniais foi coordenado pelos professores Douglas Mansur e Daniela Alves e foi dividido em duas partes: na primeira, narrativas visuais coloniais: eu, Beatriz Carvalho, Letícia Destro e José Leandro Peters. Depois, na segunda parte, Juliana Ramalho e Douglas Mansur. Falei sobre cartografia do período moderno que trata do continente africano. Detive-me bastante nas "bordas" dos mapas, buscando conceber mais o imaginário que permeou a concepção de tais mapas que analisá-los em seu interior, na divisão social da África. Penso que não foi a minha melhor apresentação, mas gostei bastante, sobretudo por estar junto com Beatriz e Letícia, visto que discutimos alguns textos e essa foi a primeira vez que estávamos presentes no mesmo fórum de discussão. Segue o resumo de minha apresentação. Assim que for disponibilizado online, posto aqui o link para o resumo expandido.
Depois dessa apresentação, segue a rotina da pesquisa.
Finalizei a leitura do Luís Filipe Barreto (Descobrimentos e Renascimento)e de uma parte do Pierre Bourdieu (A Economia das Trocas Linguísticas). O próximo passo, que já está sendo dado, é aprofundar a leitura de Ronald Raminelli (Imagens da Colonização), mesclando com leituras das fontes.
Em breve trago algumas considerações acerca das leituras já realizadas.

Resumo:

A construção da África:

Concepção visual do continente africano na cartografia dos séculos XVI e XVII.


Este trabalho faz parte do projeto de pesquisa de Iniciação Científica intitulado O homem representado: a humanidade de ameríndios e africanos em relatos de missionários (1584-1696). Ao iniciarmos as pesquisas, deparamo-nos com um grande problema: o que é a África nos séculos XVI e XVII? Partindo dessa questão, buscamos compreender a concepção européia acerca do continente negro a partir da cartografia da época. Da concepção ptolomaica da geografia do planeta, para a qual utilizamos uma representação de 1482, passamos ao mundo pós-América e, por fim, detemos nossa atenção no que concerne apenas à cartografia que tem como objeto a África. Fizemos um recorte de aproximadamente 100 anos – entre a representação de Abraham Ortelius: Africae Tabula Nova (1572) – e aquela de Nicolaas Visscher: Africae accurata tabula (1670). Além da representação dos contornos do continente, os mapas trazem as localizações dos grandes impérios, cidades, cursos de rios, entre outros. É notada também a emergência da representação de determinados grupos étnicos do continente, demarcados territorialmente nas cartas, e a paulatina substituição de elementos gráficos que remetem ao imaginário mítico medieval, como monstros marinhos, anjos, entre outros, por elementos que passam a ser mais conhecidos e presentes na cultura européia, como os próprios negros, objetos de suas culturas, cenas de encontros entre os povos... As margens dos mapas são repletas de informações que nos auxiliam na compreensão do imaginário daquela época e, no corpo das cartas, há, apesar das imensas imperfeições, informações a respeito da localização e delimitação territorial das populações subsaarianas. O objetivo desta análise é buscar compreender como a idéia de “África” foi alterada entre os séculos XVI e XVII através dos elementos visuais presentes na cartografia do período, que narra o desenvolvimento do imaginário europeu e do conhecimento acerca da África.


Abração!

terça-feira, 18 de maio de 2010

O regresso - Seminário na UFV

Olá, amigos!

Lembram que eu disse que meu PC havia pegado um vírus? Pois bem, não era vírus, foi um problema no teclado. Mandei meu possante para um técnico dar uma olhada e só agora ele chegou. Esse post é a primeira coisa que estou escrevendo no teclado novo (e confesso que estou estranhando um pouco, onde devia estar (?) tem um outro Ctrl, mas com função de (?). Muito estranho...), que vai me custar um mês quase inteiro de bolsa de iniciação científica... oh derrota!
Tendo em vistas os gastos extras, vou apresentar meu trabalho apenas no I Seminário Nacional de Narrativas Sociais, Práticas Culturais e Relações de Poder: Visões Contemporâneas. O evento começou hoje, na UFV, e a palestra de abertura foi proferida pela professora Marta Abreu - UFF - e teve como tema "As escritas videográficas da história: negociações e conflitos". A palestra começou religiosamente no horário e a historiadora falou sobre sua experiência em "fazer filmes". Coloquei a expressão entre aspas pelo próprio caráter inominal da prática: de toda forma é um filme, mas um filme-tese, uma pesquisa que ganhou as telas em vez de um livro. Marta Abreu esteve envolvida na produção de três documentários historiográficos - nome que ela criticou, por entender, hoje, não ser o mais adequado ao trabalho realizado, preferindo nomeá-lo de escrita videográfica da história - a saber: Memórias do Cativeiro; Jongos, Calangos e Folias; e Jogo do Pau. Os três trabalhos tratam de construções historiográficas que trabalham com história oral, embora o trabalho de pesquisa de arquivo também se faça bem presente. O tema é a cultura popular de origem e tradição negra no estado do Rio de Janeiro. As festas como lugares de resistência e conflito também constituem um ponto de análise.
Ao apresentar as negociações e os conflitos, a autora enfatizou os internos à equipe - necessariamente multidisciplinar, como historiadores, cineastas, apoio técnico, bolsistas, entre outros - e os externos, ao lidar com as comunidades. Abreu destacou que, ao ser questionado por membros de outros grupos culturais o porquê de se deixarem pesquisar, fazer filmes sobre sua manifestação cultural, um dos membros de determinado grupo respondeu: não sei quem usa quem. Essa constatação é de grande relevância ao afirmar que ambos os lados envolvidos - a academia e as professoras brancas, referindo-se a Hebe Matos e Marta Abreu, de um lado e, de outro, os grupos culturais) são detentores de poderes: as práticas buscam visibilidade e reconhecimento cultural, as autoras buscam, em linhas gerais, reconhecimento intelectual. O próprio campo de produção é um espaço de troca, e não apenas o resultado, como a princípio de poderia pensar.
A produção cinematográfica apresenta-se como um recorte daquelas realidades, uma representação entendida no sentido mais próximo de Bourdieu, atuando como discurso performativo, criando a realidade que se apresenta. Ao reproduzir as manifestações da cultura popular em vídeo, a Academia, entendida como espaço de reconhecida profusão de saberes, legitima tais práticas culturais transformando a percepção que a sociedade possui do processo e agindo sobre o próprio processo, ao levar seus agentes históricos a necessitarem responder ao estímulo social decorrente da valorização de sua prática.
O campo das representações é riquíssimo em possibilidades de análises e, explorando uma de suas vertentes, minha apresentação, amanhã, tratará das representações cartográficas do continente africano nos séculos XVI e XVII. Em breve disponibilizarei o link dos anais do evento, no qual meu resumo expandido estará publicado. Amanhã falo como foi a apresentação, que ocorrerá às 14h no COLUNI, sala 2C!
Abraços, e agora estou de volta!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Estive Off

Caros amigos, venho dar alguma satisfação, depois de dias sem aparecer nessa telinha. Meu computador pegou um vírus FDP, tiver que fazer o diabo-a-quatro pra recuperar, pra tentar curá-lo... Parece que, agora, a coisa está estabilizando. Bom, estou um pouco sem tempo nesse exato momento (e com um leve mal-estar, acho que foi uma gelatina que comi), por isso não vou trazer novas informações sobre a pesquisa. Adiando apenas que estou fazendo fichamentos de bibliografia e fontes, respectivamente: A Economia das Trocas Linguísticas, P. Bourdieu, e Tratado Breve dos Rios da Guiné do Cabo Verde, de A. A. de Almada. Amanhã irei para casa, ver minha amada mãe (saudade!) e, na segunda, ao voltar para Viçosa, preparo um post para colocar aqui na terça! Ok?

Abraços, feliz Dia das Mães a todos e suas respectivas mães!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Trabalho aceito para apresentação em Seminário!

Olá, pessoal!

Há dois tópicos, eu disse que havia mandado um trabalho para o I Seminário Nacional de Práticas Sociais, Narrativas Visuais e Relações de Poder: Visões Contemporâneas, lembram? Pois bem, o trabalho foi aceito para apresentação! Enviei-o para o Seminário Temático (ST) que tratará de Narrativas Visuais Coloniais e Pós-coloniais, e o tema a ser abordado é a concepção europeia acerca da África através da cartografia. Meu título é: A construção da África: Concepção visual do continente africano na cartografia dos séculos XVI e XVII.
Nesse momento estou escrevendo o texto a ser publicado nos anais do evento. Assim que estiver estruturado, trago a discussão pra cá!
Aos interessados em participar do Seminário, ele acontecerá na Universidade Federal de Viçosa - UFV, campus Viçosa, entre 18 e 20 de maio. As inscrições para ouvintes têm valor de R$ 10,00. Para mais informações, clique aqui.

Abração, pessoal!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O sujeito e o discurso

Continuo pensando a África dentro do contexto seiscentista, sobretudo tentando entender como ela foi pensada. Entretanto, nem só de África vive minha pesquisa. Estou avançando também em outras frentes, como, por exemplo, a questão indígena.
Minhas fontes são relatos de missionários que, mais que descreverem as realidades que percebem, criam novos mundos, novos conceitos, novos significados. As crenças que eles trazem consigo são maiores que as adversidades que encontram em seus caminhos, o que implica a criação de novas chaves de leitura para as realidades recém-concebidas (ou conhecidas?). Vejamos um exemplo:

Este gentio parece que não tem conhecimento do princípio do Mundo, do dilúvio parece que tem alguma notícia, mas como não tem escripturas, nem caracteres, a tal notícia é escura e confusa; porque dizem que as águas afogarão e matarão todos os homens, e que somente um escapou em riba de um Janipaba, com uma sua irmã que estava prenhe, e que destes dois têm seu princípio, e que dali começou a multiplicação.

Nesse trecho, retirado dos Tratados da Terra e Gente do Brasil, podemos notar que o dilúvio, acontecimento bíblico, parte do arcabouço cultural europeu, é transferido para a cultura indígena, como se eles concebessem tal acontecimento da mesma forma que os europeus. Nesse caso, há uma transferência de valores, julgando-se mesmo que o dilúvio, tal como "contado" pelos índios, está errado porque eles só têm alguma notícia.
A necessidade de que esses homens sejam pré-cristãos, talvez pertencentes a algum dos povos das tribos de Israel, leva os brancos a construírem-nos de acordo com a sua vontade e necessidade, e não conforme os percebem. Talvez possamos ir mais além, conjecturando - e acredito mesmo que seja isso - que os índios eram percebidos dessa forma, ocorrendo um constante apagamento dos traços descaracterísticos daquilo que os europeus buscavam. Essa percepção também é um campo fluido pois se, por ora, busca-se a aproximação entre uns e outros, noutro momento requer-se o distanciamento. Nesse sentido, os termos gentios e bárbaros se contrapõe, vez por outra sendo utilizados para referir-se às mesmas situações, mas nas quais os interesses dos sujeitos enunciadores dos discursos sofreram variações. Por exemplo: ao se almejar implantar a catequese no seio de determinados grupos indígenas, é comum encontrar fontes descrevendo esses grupo como gentios - aquele que está tal qual veio ao mundo, não possuindo religião nem idolatria. Entretanto, se desejam escravizá-los, sobretudo recorrendo ao que se chamou de Guerra Justa, os que eram gentios tornam-se bárbaros. Muitos de seus costumes, até então pouco notados, tornam-se evidentes e transformam-se em práticas mágicas e religiosas. A mutação está mais presente no discurso que no sujeito, ocorrendo mediante as necessidades volateis doutro sujeito: o enunciador.
A guerra que se trava, dessa forma, decorre mais no campo semântico e conceitual que no prático e real. Esse último recolhe seus efeitos, construídos na argumentação e na compreensão do mundo alcançada pelos religiosos. Vale ressaltar que há traços comuns desse processo tanto no Brasil como na Guiné, conforme apresentaremos mais adiante.
E a pesquisa segue!

domingo, 4 de abril de 2010

O que é a África seiscentista?

O que é a África seiscentista? Essa foi a primeira pergunta com a qual me deparei ao analisar minhas fontes. Os cronistas descrevem locais que não conheço, sequer imagino onde possam ser, ou, o que é pior, penso que sei, mas estou errado. Um exemplo desse grande problema empírico pode ser apresentado quando li o texto do padre Manuel Álvares: o cara diz que está descrevendo Serra Leoa, mas o relato é sobre Bissau. O que era a Serra Leoa no século XVI? Porque, hoje, Bissau é a capital da Guiné Bissau, e não da Serra Leoa... Problemas assim levaram-me a buscar mapas antigos da África, não para entender como ela era, e sim como era pensada.

Esse mapa, por exemplo, foi produzido em 1572. O contorno do continente africano está bem próximo do conhecido atualmente. Possui uma grande riqueza em nomes, como de localidades e povos, que grande interesse histórico.
Estou agora trabalhando com mapas da África, entre 1572 e 1670. Meu objetivo é perceber como, através da cartografia, a idéia de África foi alterada no decorrer desse século. Espero conseguir apresentar esse trabalho no I Seminário Nacional de Práticas Sociais, Narrativas Visuais e Relações de Poder: visões contemporâneas, que acontecerá na UFV.
Dentro em breve, trago mais notícias sobre essa empreitada da minha pesquisa.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Bibliografia de apoio

Caríssimos!

Abaixo há uma pequena bibliografia, composta por artigos, dissertações, teses, livros e capítulos de livros. Esses são apenas alguns que tenho em mãos. Embora não os tenha lido a todos, acredito que são pontos interessantes para se partir nessa expedição científica rumo a l’Autre, aquele que é o lado escondido do eu. Retirei as referências no formato da ABNT para economizar espaços! Espero que ajude a possíveis interessados no tema!

Artigos

BARBOSA, Muryatan S. História da África: uma introdução.

BARBOSA, Muryatan S. Eurocentrismo, História e História da África.

BARBOSA, Muryatan S. A escola Nina Rodrigues na Antropologia brasileira.

BOCCARA, Guillaume. Mundos nuevos en las fronteras del Nuevo Mundo, Nuevo Mundo Mundos Nuevos.

BONCIANI, Rodrigo. A política ultramarina de Filipe III no Brasil e em Angola.

SANTOS, Irinéia Maria Franco.Iá Mi Oxorongá: As Mães Ancestrais e o Poder Feminino na Religião Africana.

SANTOS, Irinéia Maria Franco. Ancestralidade na Dinâmica Cultural Africana.

SANTOS, Irinéia Maria Franco. O problema do mal: abordagens sobre a Teodicéia e o Catolicismo.

VAINFAS, Ronaldo: Idolatrias e Milenarismos: a resistência indígena nas Américas.

Teses e dissertações (disponíveis nos links da UF's dos posts anteriores):

ALVES, Salomão Pontes. O paladino dos hereges: a defesa dos cristãos-novos e judeus pelo padre Antônio Vieira.

BAYONA, Yobenj A. C. Imago gentilies brasilis: modelos de representação pictórica do índio da Renascença.

CAMILO, Janaína Valéria Pinto. A medida da Floresta: as viagens de demarcação e exploração do país da Amazônia (séculos XVII e XVIII).

CARVALHO JÚNIOR, Almir Diniz de. Índios Cristãos: a conversão de gentios na Amazônia Portuguesa.

DELVAUX, Marcelo Motta. As Minas Imaginárias: O maravilhoso geográfico nas representações sobre o sertão da América Portuguesa – séculos XVI a XIX.

DIAS, Camila Loureiro. Civilidade, cultura e comércio: os princípios fundamentais da política indigenista na Amazônia (1614-1757).

FERNANDES, João Azevedo. Selvagens bebedeiras: Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil Colonial.

FREITAS, Ludmila Gomide. A Câmara municipal da vila de São Paulo e a escravidão indígena no século XVII (1628-1696).

GABRIELLI, Cassiana Maria Mingotti. Capuchinhos bretões no Estado do Brasil: estratégias políticas e missionárias (1642-1702).

GONÇALVES, Rosana Andréa. África Indômita: missionários capuchinhos no reino do Congo (século XVII).

GURGEL, Cristina B. F. M. Índios, jesuítas e bandeirantes: medicinas e doenças no Brasil dos séculos XVI e XVII. 2009.

LIMA, Sheila Conceição Silva. Rebeldia no Planalto: A expulsão dos padres jesuítas da vila de São Paulo do Piratininga no contexto da Restauração (1627-1655).

LUZ, Guilherme Amaral. Carne Humana: A retórica do canibalismo na América Portuguesa quinhentista.

MANO, Marcel. Os campos de Araraquara: Um estudo de história indígena no interior paulista.

MORAIS, Regina Célia de Melo. L. A. Muratori e o Cristianismo Feliz dos padres da Companhia de Jesus no Paraguai.

NUNES, José Horta. A construção dos leitores nos discursos dos viajantes e missionários.

OLIVEIRA, Adalberto L. R. Ramkokamekra-Canela: Dominação e resistência de um povo Timbira no centroeste maranhense.

PANEGASSI, Rubens Leonardo. O mundo universal: alimentação e aproximações culturais no Novo Mundo ao longo do século XVI.

PEIXOTO, Tatiana C. Os mandarins do Sertão: os criadores de gado do São Francisco (1650-1750).

PURPURA, Christian. Formas de existência em áreas de fronteira: A política portuguesa dos espaços e os espaços de poder no oeste amazônico (séculos XVII e XVIII).

RESENDE, Maria Leônia C. Visões da conquista: verso e reverso (as missões jesuíticas nos séculos XVI e XVII).

RIBAS, Maria Aparecida A. B. O leme espiritual do navio mercante: a missionação calvinista no Brasil Holandês (1630-1645).

SCARAMUZZI, Igor A. B. De índio para índio: a escrita indígena da história.

SILVA JÚNIOR, Waldormiro Lourenço da. A Escravidão e a Lei: gênese e conformação da tradição castelhana e portuguesa sobre a escravidão negra na América (séculos XVI-XVIII).

TAVARES, Célia Cristina da Silva. Entre a cruz e a espada: Jesuítas e a América Portuguesa.

VARELLA, Alexandre Camera. Substâncias da Idolatria: as medicinas que embriagavam os índios do México e Peru em histórias dos séculos XVI e XVII.

Livros:

ALENCASTRO, Luiz Felipe. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul.

APPIAH, Kwane Anthony. Na casa de meu pai: A África na filosofia da cultura.

BARRETO, Luís Filipe. Descobrimentos e Renascimento: Formas de ser e pensar nos séculos XV e XVI.

BONILLA, Heraclio (org). Os conquistados: 1492 e a população indígena das Américas.

BOXER: Charles R. O Império Marítimo Português – 1415-1825.

CASTELNAU-L’ESTOILE, Charlotte. Operários de uma vinha estéril: Os jesuítas e a conversão dos índios no Brasil – 1580-1620.

CUNHA, Manuela Carneiro da (org). História dos Índios no Brasil.

DOSSE, François. A História em Migalhas: dos Annales à Nova História.

GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história.

GREENBLATT, Stephen. Possessões Maravilhosas: o deslumbramento do Novo Mundo.

GRUZINSKI, Serge. A colonização do imaginário: sociedades indígenas e ocidentalização no México espanhol. Séculos XVI-XVIII.

HAUBERT, Maxime. Índios e jesuítas no tempo das missões.

HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula: visita à história contemporânea.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso: os nativos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos.

LOVEJOY, Paul E. A Escravidão na África: uma história de suas transformações.

O’GORMAN, Edmundo. A Invenção da América: reflexão a respeito da estrutura da história do Novo Mundo e do sentido do seu devir.

POMPA, Cristina. Religião como tradução: missionários, Tupi e Tapuia na Brasil colonial.

PUNTONI, Pedro. A guerra dos Bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil (1650-1720).

RAMINELLI, Ronald. Imagens da Colonização: A representação do índio de Caminha a Vieira.

SCHWARTZ, Stuart. Cada um na sua lei: Tolerância religiosa e salvação no mundo atlântico ibérico.

SILVA, Alberto da Costa e. A enxada e a lança: a África antes dos portugueses.

THOMAZ, Luis Filipe F. R. De Ceuta a Timor.

TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: a questão do outro.

VAINFAS, Ronaldo (org). A América em tempo de conquista.

Capítulos:

WESSELING, Henk. História de Além Mar. In BURKE, Peter. A escrita da História. Novas Perspectivas.

TODOROV, Tzvetan. Viajantes e indígenas. In GARIN, Eugênio. O homem renascentista.

BONTINCK, F. La première “ambassade” congolaise à Rome (1514). In Études d’histoire africaine.

BURGUIÈRE, André. A antropologia histórica. In LE GOFF, Jacques; CHARTIER, Roger; REVEL, Jacques (orgs.). A História Nova.


Espero que seja de alguma valia! Abração!


quinta-feira, 25 de março de 2010

Consultas em bibliografia

Pessoal, caso tenham ficado dúvidas a respeito de como elaborar seu projeto de pesquisa, gostaria de sugerir um livro:

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas. 2007. 4ªed.

Achei pertinente colocar esse referência para orientar os interessados de forma mais sistemática na elaboração do projeto. Aproveito para agradecer ao PH pelo questionamento a respeito de literaturas na área!

Abraços!

segunda-feira, 22 de março de 2010

Links úteis aos iniciandos na pesquisa

Ladies and gentlemen!
Minha pesquisa anda meio garrada... Estou cursando sete disciplinas neste período e, para desgraça de minha investigação, uma delas é extrema, extremamente egocêntrica: História do Brasil III. A professora dessa disciplina (interessante, sem dúvida, mas desgastante também) pensa que não temos mais nada a fazer que não seja estudar a Velha República! Devido a esse constrangimento temporal, minhas atividades andam meio devagar.
A última coisa que fiz foi um levantamento bibliográfico em páginas de grandes Universidades, como a USP, Unicamp, UFF, UFRJ e UFMG. Busquei teses e dissertações acerca de índios e África no século XVII. Para meu espanto, ninguém pesquisa essa temporalidade!
Claro que ninguém é muita coisa, mas foram pouquíssimos os trabalhos que encontrei, garimpando nos departamentos de História e Ciências Sociais, hein!
Na USP é tranquilo pesquisar: há as teses e dissertações e o link para baixar em PDF.
Na UFMG, há muitas teses disponíveis, que tem direcionamento para o Domínio Público.
Na Unicamp, há o banco de teses.
Na UFF não há muita coisa disponível, mas vale a pena garimpar, o que há tem qualidade.
Na UFRJ, busquei na linha de pesquisa de História Comparada e na de História Social, que tem um excelente sistema de buscas!
Para quem estiver interessado, esses links são bons caminhos para início de conversa.

No próximo tópico, apresento o fruto dos meus garimpos!
Abraços, povo!

quarta-feira, 17 de março de 2010

Como escrever um projeto de pesquisa - II

Olá, bom dia!
Retomando nosso papo, vamos analisar hoje como, de fato, se escreve um projeto. O escrever é um momento ímpar na constituição de um projeto, é quando se tem todo o trabalho de resgatar o que foi lido, de associar ideias, de construir novos pensamentos... enfim: expressar-se. É preciso ter calma e não deixar tudo para a última hora: um projeto necessita ficar alguns dias de molho, ser cozinhado em banho-maria, é um processo lento.
Vamos para a estrutura. Comece seu projeto com a capa, que também terá a função de folha de rosto. Nome da Universidade, departamentos e tal, nome do projeto, quadro à direita (que viria na folha de rosto) dizendo quem você é e a que aquele texto destina-se . Por fim, local e data. Simples, não? Depois, na primeira página, repita o nome do projeto e faça uma breve epígrafe. Muitos não a fazem, mas acredito que valoriza o trabalho. Meu projeto, por exemplo, ficou assim:

O homem representado
A humanidade de ameríndios e africanos em relatos de missionários (1584-1696).
HOMEM: Criatura, que tem natureza humana, Animal
racional, capaz da Graça Divina, & da Glória eterna. (...) He
o home coisa taõ grande, que o mesmo Deos se fez home.
BLUTEAU. Raphael, Vocabulário Português e Latino

Inicia-se, assim, a discussão da pesquisa.
Na introdução, há quem faça uma abordagem histórica de seu tema, contando mesmo a história daquilo que pesquisará. Eu, por outro lado, acredito que a função da introdução de um projeto de pesquisa é, de forma simples e objetiva, apresentá-lo em linhas gerais. Não deve estender-se muito. Depois vem o Problema de pesquisa: o que pretendo fazer? Apresente seu problema. Isso é importante: se você não tem um problema, o que vai pesquisar? A pesquisa não é um trabalho para ocupar tempo vago: o pesquisador deseja chegar a algum resultado, algo que auxilie-o na compressão de determinado processo, mentalidade ou comportamento. Ela tem um objetivo, mas há uma pedra no meio do caminho, a ser superada. Nunca se esqueça, mesmo na vida de suas retinas, tão fatigadas! E outra, se você não tem um problema, ah, isso é um grande problema!
Expôs o que te incomoda? Então explique para o avaliador o que você espera dessa atividade: apresente os objetivos gerais. Esses são macro-objetivos, com o intuito de contribuir de forma geral com o conhecimento historiográfico. Você sabe que quase ninguém, além de você, interessa-se pela sua pesquisa, mas nela há aspectos que podem ser relevantes para outras áreas. Apresente-os como objetivos gerais!
E depois, vêm os específicos. Aí é a coisa sua: onde espera chegar?
Beleza, mas por que tudo isso? Justifique a relevância de sua proposta, o porquê de ela ser importante e a falta que faz, para suprir determinadas lacunas presentes no conhecimento historiográfico. Atenção: se não há lacunas a serem preenchidas pela sua pesquisa, vá fazer outra coisa.
Estamos quase no fim. Agora que está claro o que fazer, por que fazer e o que espero que aconteça, é hora de explicar o como. Teorias e Métodos é uma etapa relevante na construção de um projeto porque mostra sua orientação teórica (ou seja, como você concebe a história) e apresenta os métodos que serão utilizados nessa pesquisa. Por exemplo: você acredita na necessidade de estudar as relações entre o eu e o outro, pautar-se nas concepções dos indivíduos, compreender a história como a soma dos processos individuais. Isso é a teoria. Em seus métodos, serão feitos levantamentos biográficos das personagens que aparecem nas fontes, buscar-se-á compreender as concepções que elas tinham, suas crenças e medos, analisando materiais aos quais elas tinham acesso... é a construção de um contexto, no qual situá-las. Há muitas críticas ao contextualismo na história. É claro que nunca saberemos como a personagem reagiu em relação a dado livro e/ou fato, mas conhecendo-os, certamente ela apropria-se deles e utiliza-os para reconstruir, semanticamente, seu espaço, suas relações. Isso é o que tentamos compreender: a relação entre uns e outros, seus significados e, talvez mais do que isso, como o indivíduo pensa o mundo e como isso altera suas ações.
Por fim, apresente suas fontes, que você já deve conhecer. Acredito que não há necessidade de um tópico do tipo Considerações Finais. Se achar pertinente, coloque-o e, em não mais de 20 linhas, recapitule todos os passos anteriores. Eu não o fiz em meu projeto. Finalize com a exposição da bibliografia consultada ou a ser consultada. Não coloque mais que duas páginas e lembre-se: as regras da ABNT existem para serem seguidas. Demonstre conhecimento!
Terminado, deixe o texto de repouso por alguns dias. Depois volte fazendo uma varredura: correção ortográfica e gramatical, refinamento no uso dos conceitos, aprofundamento das discussões, supressão de partes desnecessárias... Essa etapa é muito importante, volte a ela sempre que achar necessário, mas sempre depois de alguns dias sem mexer com o texto. Assim a cabeça tem um descanso e as ideias fluem melhor!
Projeto pronto, o negócio é esperar a bolsa ser aprovada! No post seguinte, passaremos direto para o início das atividades: colocando as mãos na massa!
Abraços!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Como escrever um projeto de pesquisa - I

Olá, pessoal!
Continuando nosso blog, vale a pena apresentar como a pesquisa começou: com um projeto.
Mas, a pergunta que muitos fazem é: como escrever um projeto de pesquisa? A princípio, não há muitos segredos, a maior dificuldade é encadear as informações de forma clara, mostrando que um texto puxa o outro, que dado completa o pensamento apresentado no tópico anterior, essas coisas.
Antes de entrarmos na estrutura do projeto, que será na próxima postagem, precisamos ter claro em mente, ao sentar na cadeira para escrever o projeto, que você não está começando do nada. Ao chegar nessa fase, você deve, necessariamente, ter seu tema definido, uma certa bibliografia lida, conhecer suas fontes e ter acesso livre a elas. Um projeto de pesquisa não é o início de uma atividade científica, mas um caminho mais delineado para o final dela.
No meu caso, já tinha o tema definido, desde o final de 2008. Durante o ano de 2009 fui ajustando, modificando, acrescentando... E o mais importante: lendo muito!
Meu ponto de partida foi o livro Religião como Tradução: missionários, Tupi e Tapuia no Brasil colonial, de Cristina Pompa, para tratar da questão indígena, e a tese de doutorado de José da Silva Horta, intitulada A Representação do Africano na Literatura de Viagens, do Senegal à Serra Leoa (1453-1508). Embora os recortes propostos por Pompa e Horta sejam muito distantes dos meus em alguns aspectos, há grande convergência em outros, sobretudo no que trata de religião, em Pompa, e dos costumes e modos de vida, em Horta. A partir dessa base, fui aumentando a linha de autores e idéias. Entre eles, um destaca-se: Stuart Schwartz, com o livro Cada um na sua lei: tolerância religiosa e salvação no mundo ibérico atlântico. Discutindo basicamente religião, Schwartz encaixou como luva em minha discussão.
Conhecida a bibliografia, é necessário conhecer as fontes. Há quem diga que o ideal é o contrário. Eu, particularmente, acredito que seja bom ter uma base bibliográfica antes de adentrar nos documentos. Mas atenção: uma base bibliográfica, não ler tudo sobre o assunto, para evitar que seu pensamento se corrompa e se limite diante do que já foi escrito. As fontes que utilizarei são relatos de religiosos ou pessoas que se relacionam com a religião. Nesse segundo caso, temos o luso-caboverdiano André Álvares de Almada, a respeito da África. No primeiro caso, há relatos de Fernão Cardim, Claude D'Abbeville, além de transcrições de vários missionários no livro de Pompa e de um compilado de cartas de bispos que foram para a África, reunidos num livro de Avelino Teixeira da Mota.
Conhecido esse terreno básico da pesquisa, seguimos para a segunda etapa: chá de cadeira. A escrita é um momento de quase transe, mas há que se dizer, dá trabalho!
No próximo post abordarei esse tema!
Abraços!